Geisa Sousa Santos - participante do projeto AI for Inclusive Urban Sidewalks de São Paulo.

 

Não apenas posso citar minha experiência, como posso detalhar algumas. Além disso, posso também sugerir algumas ações nesse sentido. 

Falando em um sentido amplo, pois o que acontece comigo é o que em geral acontece com a maioria de nós, pessoas com deficiência, visual e às vezes com outras deficiências. Dando um simples exemplo: quando nos é possível, planejamos nosso entorno, ou seja, nossa casa, da maneira mais acessível possível e quando saímos do portão para fora, torcemos o pé em uma pedra pequena, deixada por alguma empresa de “manutenção” da cidade. 

Alguns questionarão: “ora, mas aí também não dá para impedir, uma simples pedrinha...” 

Só o que posso responder é: coloca na conta. 

Em outro momento, a torção é por conta de um buraco e ele nem precisa ser tão grande, mas basta que ele esteja lá e que a bengala não o alcance, isso acontece mais do que se possa imaginar. Agora pensem em quem usa moletas, cadeira de rodas, prótese, etc. Acrescente a isso uma calçada estreita, preciso desenhar?  

Mas me foi solicitado um exemplo em que tenha vivido, uma determinada situação: “eu estava andando pela calçada, indo a um mercado perto de minha casa, não precisava atravessar nenhuma rua, estava sozinha, mas lembre-se que sou cega, no meio do caminho havia um obstáculo, estavam consertando a calçada, (ação extremamente necessária), colocaram um aviso, uma faixa que, deveria avisar as pessoas uma passagem, rsrs, só rindo, né? 

O resultado é que minha sandália ficou cheia de cimento fresco, fiquei assustada, não entendi nada, mas senti um material grudando em mim sem saber o que era. Era a faixa, o povo que estava na rua começou a gritar, mas só depois que eu já estava com os dois pés no cimento. É por essas e outras que eu não gosto de andar sozinha! 

Em outro momento, estávamos eu, minha amiga Irene, e outros amigos com deficiência visual, alguns cegos e outros com baixa visão. Em terra de cego, quem tem um olho é escravo de quem não tem nenhum, ou seja, os baixa visão guiam os cegos e não foi diferente nesse dia. 

Acontece que a Irene não viu o orelhão e dei de cara com ele. Ela me guiava à sua direita e outra pessoa que estava à esquerda dela, sentiu uma dor intensa, e nunca nos esqueceremos dela. 

Outro exemplo, de outros usuários da Instituição Laramara, costuma ser encontrado no meio do caminho até o metrô com a entrada muito confusa de um estacionamento, que muitas vezes nos fazia entrar, deixando-nos desconcertados e confusos, mas com o tempo, nos acostumamos com ela. 

Não vou ficar falando das inúmeras calçadas que me fazem ir para a rua por conta de lixo e buracos ou obstáculos, isso a essa altura, me parece literalmente grandes absurdos. 

O que penso é que tão importante quanto identificar o melhor trajeto, é melhorar os já existentes, tornando urgente definir uma padronização de calçadas e é ainda mais necessário definir quem é de fato o responsável pelas calçadas.  

Hoje em São Paulo, me parece que é o munícipe. Se isso for verdade, ele deverá ser orientado, recebendo informações para se locomover. Inclusive, a maioria da população não tem condição de fazer a pavimentação de sua calçada, mas a prefeitura poderia fazer isso para os cidadãos, discutindo as melhores soluções.  

O fato é que, a calçada para além da segurança das pessoas, com ou sem deficiência, deve assegurar o ir e vir daqueles seja por qual razão, tem alguma limitação, que é ampliada pela não existência ou má conservação das calçadas. 

Saliento também que as cidades não se resumem aos centros!